Pesquisa financiada pelos EUA previa 14 mil bebês, metade sem a dose contra hepatite B ao nascer; universidade afirma que nenhum participante foi incluído.
Uma pesquisa sobre a vacina contra hepatite B em recém-nascidos na Guiné-Bissau foi cancelada após críticas à sua ética, segundo reportagem da BBC News publicada em 5 de novembro de 2026. Financiado pelo governo dos Estados Unidos, o estudo previa que metade dos bebês participantes não recebesse a dose ao nascer, recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Informações divulgadas
O projeto seria conduzido no Bandim Health Project, centro de pesquisa que atua no país desde 1978, e envolveria 14 mil recém-nascidos. Segundo a instituição, o objetivo era investigar possíveis efeitos da vacinação ao nascer sobre a saúde, além da proteção contra a infecção. Os pesquisadores defendiam aproveitar o período anterior à introdução dessa dose na rotina nacional, então prevista para 2028.
O governo proibiu em janeiro os ensaios de vacina contra hepatite B envolvendo crianças. Em outubro, o ministro da Saúde, Quinhin Nantote, reiterou que a suspensão continuava válida. A Universidade do Sul da Dinamarca afirmou que um protocolo revisado havia recebido aprovação ética das autoridades locais, declaração negada pelo ministro.
Jakob Grauslund, dirigente da universidade, declarou que o estudo nunca começou, nenhum bebê foi inscrito e nenhuma vacina foi aplicada como parte da pesquisa. A instituição também informou ter obtido parecer favorável de seu próprio comitê de ética. Grauslund ressaltou, porém, que essa avaliação não substituía a autorização exigida das autoridades de Guiné-Bissau.
Em 19 de outubro, a Polícia Judiciária apreendeu um lote de vacinas no centro de pesquisa, em Bissau. A corporação não divulgou a quantidade nem os motivos específicos da investigação e não esclareceu se ela estava ligada ao estudo. Também destacou que a apreensão, por si só, não indicava defeito ou falta de segurança das doses.
Contexto
Walter Kazadi Mulombo, representante da OMS no país, afirmou à BBC que a principal preocupação ética era deixar parte dos bebês sem uma intervenção cuja proteção já foi demonstrada. Ele alertou para o risco de transmissão durante o parto quando a mãe está infectada. Na Guiné-Bissau, a vacinação contra hepatite B começa atualmente às seis semanas de vida.
O financiamento de US$ 1,6 milhão foi concedido pelo CDC dos Estados Unidos à universidade em dezembro de 2025. Críticos questionaram se a pesquisa poderia favorecer mudanças na política americana de vacinação sob o secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr. A BBC ressalta que não há evidência de que o estudo tenha sido concebido para justificar essa alteração.
O que muda para a população
Quase um quinto da população do país tem hepatite B, infecção viral que atinge o fígado, conforme a reportagem. A OMS trabalha com o governo para antecipar a dose ao nascer. Segundo Mulombo, as autoridades avaliam incluí-la no calendário no primeiro trimestre de 2027; a mudança ainda estava em consideração.
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